Por uma Igreja sinodal |
Análise
A Etapa Continental do Sínodo dos Bispos no Patriarcado de Lisboa
<<
1/
>>
Imagem

Estamos a viver a Etapa Continental do Sínodo dos Bispos. Esta fase situa-se entre a fase diocesana, que se caracterizou por uma grande consulta às Igrejas Locais, e a fase universal, que se realizará em Roma em duas assembleias gerais nos meses de outubro de 2023 e 2024.

 

A Etapa Continental é caracterizada por um diálogo entre as Igrejas de uma região específica, no nosso caso as Igrejas da Europa (CCEE). A par desta Assembleia que se realizará de 5 a 12 de fevereiro de 2023 em Praga, realizar-se-ão mais seis assembleias, a saber: América Latina e Caribe (CELAM), África e Madagáscar (SECAM), Ásia (FABC), Oceânia (FCBCO), América do Norte (EUA e Canadá) e Médio Oriente, que verá especificamente a contribuição das Igrejas Católicas Orientais.

A fase diocesana culminou com entrega dos 112 relatórios das Conferências Episcopais à Secretaria-geral do Sínodo. A partir destes documentos e outros contributos, esta emanou o Documento de trabalho para a Etapa Continental (DEC). Este documento, de 27 de outubro de 2022, tem como título “Alarga o espaço da tua tenda” (Is54, 2). A partir da imagem da Nova Jerusalém que se alarga a todos os povos, apresenta-nos os frutos e os desafios que a vivência deste caminho sinodal tem colocado à Igreja e apresenta-nos os próximos passos deste percurso. Depois da leitura e oração, pede-se uma reflexão e diálogo a partir de algumas questões (DEC, 106), que aqui abrevio: a) “que intuições ecoam, de modo mais intenso, com as experiências e as realidades concretas da Igreja do vosso continente?”; b)quais as tensões ou divergências substanciais surgem como particularmente importantes na perspetiva do vosso continente? Consequentemente, quais são as questões ou interrogações que deveriam ser enfrentadas e tomadas em consideração nas próximas fases do processo?”; c) quais as prioridades, os temas recorrentes e os apelos à ação que podem ser partilhados com outras Igrejas locais no mundo e discutidos durante a Primeira Sessão da Assembleia sinodal em outubro de 2023?”

 

Antes das assembleias continentais, pediu-se que as dioceses fizessem chegar às conferências episcopais uma resposta a estas questões, de modo a que o caminho sinodal continue a dinamizar todos os membros da Igreja e para que os representantes de cada país possam levar às assembleias um discernimento mais alargado com o resultado desta participação.

Foi neste contexto que a coordenação diocesana do Sínodo em Lisboa convocou os coordenadores das várias comunidades para duas reuniões. Numa primeira reunião deu-se a conhecer o DEC, e incentivou-se os coordenadores a divulgarem o documento nas suas comunidades, a reunirem-se com os grupos sinodais ou outros grupos, a fim de rezar, refletir e responder às questões acima enunciadas. Na segunda reunião, a partir dos resumos de cada comunidade, em diálogo espiritual, os coordenadores responderam a estas questões, tal como nos era pedido pela Secretaria-geral do Sínodo: “as Igrejas particulares são chamadas agora a refletir sobre o DEC. Não sendo uma auscultação como a anterior (fase diocesana), as Equipas Sinodais de cada diocese (que podem ampliar a escuta e o discernimento a outros grupos, movimentos, institutos de vida consagrada…) são chamadas a continuar o processo”. A partir desta reflexão, enviou-se um pequeno relatório à CEP com o contributo da cerca de meia centena de coordenadores que participaram nestes encontros. Não se trata de uma nova síntese diocesana, mas antes o acolhimento de propostas, acentuações vindas das Equipas Sinodais.

Os temas mais abordados neste encontro foram os seguintes: a importância da sinodalidade como desafio à Igreja do nosso tempo; o acolhimento evangelizador e de uma evangelização acolhedora, que procura chegar a todos, propondo sempre um caminho de salvação; e, por fim, a comunicação na Igreja: o diálogo com o mundo, com a sociedade, com a cultura; mas também a comunicação interna.

 

Em relação ao tema da Sinodalidade, salientou-se que este caminho proporcionou o encontro com o outro, a escuta atenta e profunda, um maior e melhor diálogo. Está, por isso, a ser um caminho de renovação, que está a ajudar-nos a regressar à essência da vivência cristã. Contudo, também se alertou para o risco de confusão da sinodalidade com a democratização, da passividade por muitos neste processo sinodal e para o perigo do clericalismo. Ficando como desafio querer continuar o caminho sinodal, apostando na formação integral, em especial na formação de lideranças mais espirituais e humildes.

Já no que diz respeito ao acolhimento, salientou-se a vivência de algum crescimento e maior abertura e compreensão aos que procuram a Igreja em diversas ocasiões; os ensaios missionários que expressam a urgência de alcançar efetivamente as situações de pobreza (os idosos, os solitários, os migrantes, os sem abrigo...). Alertou-se para a redução de prática dominical; para a dificuldade de acolher todos de igual forma, em aceitar a diversidade no seio da Igreja (casais em segunda união, pessoas com atração pelo mesmo sexo ou em uniões homossexuais, pessoas com deficiência). Ainda neste ponto salientou-se a necessidade de crescer na compreensão do significado do acolhimento materno da Igreja: um acolhimento que ama o suficiente para acolher, mas ama demais para querer deixar a pessoa onde está. Por isso, propõe sempre um caminho de salvação, respeitando os passos e as etapas de cada pessoa.

Por fim, no tema da comunicação e da evangelização destaca-se a participação, envolvimento e responsabilização de bastantes jovens, com ênfase nos temas da ecologia integral e em algumas atividades como as Jornadas Mundiais da Juventude, missões universitárias, campos de férias e o escutismo. Por outro lado, sente-se em geral um afastamento dos jovens das celebrações dominicais e de algumas comunidades paroquiais e a dificuldade em assumirem compromissos de longo prazo. Abordou-se a preocupação da hipercomunicação, edificando sociedades de anestesiados e indiferentes. Vive-se a dificuldade no silêncio, na escuta de Deus e do outro, o que leva a incompreensões e conflitos. Chama-se a atenção para um peso decrescente da Igreja na sociedade europeia. Como desafio é necessário propor o silêncio e a oração, adaptar a comunicação a este mundo contemporâneo, com uma linguagem mais simples, autêntica e atraente de modo a interpelar a vida dos fiéis.

 

Cón. Rui Pedro Carvalho, coordenador diocesano do Sínodo dos Bispos

A OPINIÃO DE
Tony Neves
O Gabão acolheu-me de braços e coração abertos, numa visita que foi estreia absoluta neste país da África central.
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Impressiona como foi festejada a aprovação, por larga e transversal maioria de deputados e senadores,...
ver [+]

Guilherme d'Oliveira Martins
Há anos, Umberto Eco perguntava: o que faria Tomás de Aquino se vivesse nos dias de hoje? Aperceber-se-ia...
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Já lá vai o tempo em que por muitos cantos das nossas cidades e vilas se viam bandeiras azuis e amarelas...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
EDIÇÕES ANTERIORES