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“Divórcio e Acompanhamento” - 1.ª Parte
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Um Padre, uma Mediadora e um Casal, desafiados a orientar um workshop intitulado: “Divórcio e Acompanhamento”, que integrou o leque de workshops que emolduraram o último Congresso Teológico-Pastoral, no dia 5 de Outubro de 2022, com o título “A vocação ao Amor e à Santidade dos jovens e das Famílias”.

 

O fracasso de um projeto deixa-nos sem chão e completamente desorientados e por vezes vazios. Que sentido? Que rumo dar? Muita vontade de fugir… Uma dor dilacerante que também Jesus a experimentou, quando separado se dirige ao Pai: Meu Deus, meu Deus, porque Me Abandonaste?

 

Neste workshop, o objetivo não era tanto o de dar respostas, mas suscitar as perguntas necessárias para proporcionar um diálogo reflexivo e uma escuta ativa e empática entre os participantes, conscientes que o tema não se iria esgotar naquela hora. Uma oportunidade para trazer à comunhão, um tema por muitos escusado, mas que atualmente é demasiado grande para ser ignorado. O Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia lançou pistas sobre como abordar este tema e fomentar em nós o desejo de acompanhamento pastoral, onde cada irmão, encontre o rosto misericordioso de Deus.

 

O termo divórcio no contexto da Igreja Católica, isto é, segundo a jurisdição canónica, é uma contradição. Contudo na jurisdição civil encontra sentido, uma vez que se trata da rescisão de um contrato de casamento, permitindo deste modo, poder estar presente neste workshop na qualidade de Mediadora.

 

O contributo do casal Zézinha e Paulo foi de enorme importância, uma vez que puderam na primeira pessoa e com enorme propriedade, apresentar a sua experiência. Casados desde 2007 pelo registo civil e pela Igreja desde 2016, depois de decretada a nulidade do primeiro matrimónio de Paulo, partilharam o seu testemunho de um percurso marcado pelo sofrimento e exclusão por parte da comunidade católica. Hoje – afirma Paulo – sinto-me um pouco como o filho pródigo que volta a casa e que o Pai o recebe e dá-lhe um abraço. É sentir este amor profundo e pleno. Mas nem sempre foi assim: no momento da separação foi muito complicado porque eu não estava à espera. Quando casei, pensei que era para toda a vida. O momento da separação e do divórcio foi um momento com muita dor. Senti-me um bocado perdido. Estive três anos sem estar com a minha família. (...) às vezes, ia a caminho do trabalho e dizia: «Quem me dera ter aqui um acidente e que morresse para acabar este sofrimento…».

 

Algum tempo depois, Paulo e Zezinha, conheceram-se e após uma crescente amizade a união foi consequente. Contudo – afirma Zezinha – quando decidimos ir viver juntos, o mundo desabou. Foi quando me apercebi que, a partir daquele momento, havia uma série de coisas que me seriam vedadas por parte da Igreja. Eu, na altura, estava a fazer o curso de preparação para chefe [de escuteiros] e fui informada de que já não poderia ser investida por causa disso. Ao fim de 14 anos de vivência escutista, para mim foi um choque. Como é que no dia antes eu era um bom exemplo para os jovens e no dia seguinte, deixei de o ser?!

 

De grande contributo e importância, foi a presença no painel, do Cónego Rui Pedro, que trouxe à reflexão a importância do Acompanhamento e da Escuta enquanto caminho e atitude de toda a Igreja, onde cada família deve ser ouvida com respeito e amor, encontrando companheiros de caminho como Cristo com os discípulos rumo a Emaús. São particularmente válidas para tais situações estas palavras do Papa Francisco: «A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta “arte do acompanhamento”, para que todos aprendam a tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Êx 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã̃» (Evangelii Gaudium, 169).[1]

 

Paulo afirma que se eu tivesse preparado o meu primeiro casamento como deve ser, se calhar não tinha casado, tinha percebido que não estava preparado para casar. E depois do casamento também não houve um acompanhamento da Igreja.

 

Por outro lado – afirma Zezinha – tem de haver acolhimento da parte da Igreja, e a Igreja não são só os padres. Falta pensar e preparar uma estrutura para acolher as pessoas. Se as pessoas soubessem que os divorciados sofrem, pensavam «será que não se pode acolhê-los», ajudar as pessoas a passar este momento difícil.

 

Afirmações que refletem o n.º 51 da Relatio Synodi, onde se afirma que as situações dos divorciados recasados exigem um discernimento atento e um acompanhamento de grande respeito, evitando qualquer linguagem e atitude que os faça sentir discriminados e promovendo a sua participação na vida da comunidade. Cuidar deles não é, para a comunidade cristã, uma debilitação da sua fé e do seu testemunho a propósito da indissolubilidade matrimonial mas, ao contrário, precisamente neste cuidado ela exprime a sua caridade.

 

texto elaborado por Susana Silva, Mediadora de conflitos Familiares, com a colaboração do Cónego Rui Pedro Trigo de Carvalho e do casal Maria José Costa (Zézinha) e Paulo Alves



[1] cf. Relatio Synodi (n. 46).

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