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Papa Emérito Bento XVI (1927-2022) faleceu aos 95 anos
“Dar todo o lugar a Deus”
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O Cardeal-Patriarca de Lisboa destacou como Bento XVI, no seu “percurso pessoal e pontifical”, procurou “dar todo o lugar a Deus para dar também toda a atenção ao próximo”. Faleceu, a 31 de dezembro, o Papa Emérito, de 95 anos, o “simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor”, como se apresentou ao mundo em 2005, quando foi eleito Sucessor de Pedro.

 

‘Signore, ti amo!’ (‘Senhor, eu te amo!’). As últimas palavras de Bento XVI, em italiano, foram pronunciadas pelas 3h00 da madrugada de dia 31 de dezembro, horas antes de morrer, às 9h34, segundo o Vaticano. Quem as ouviu foi o enfermeiro do turno, que naquele momento estava a sós com o Papa Emérito, e as testemunhou ao secretário particular de Bento XVI, D. Georg Ganswein. “Bento XVI, num sussurro, mas de uma maneira facilmente distinguível, disse em italiano: ‘Senhor, eu te amo!’. Essas foram as suas últimas palavras, compreensíveis, porque depois disso ele não já não se conseguiu expressar”, revelou o arcebispo alemão, que foi secretário particular de Bento XVI durante décadas.

Sucessor do Papa São João Paulo II, Bento XVI foi eleito a 19 de abril de 2005. Sete anos e dez meses depois, o Papa alemão renunciava, tornando-se Papa Emérito a 28 de fevereiro de 2013. Desde então, passou a viver no Mosteiro ‘Mater Ecclesiae’, nos jardins do Vaticano, levando uma vida dedicada à oração. Faleceu na manhã do último dia do ano 2022 e foi recordado, na Sé Patriarcal, pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, na Missa de sufrágio de Bento XVI, no dia 2 de janeiro. “Como cristão, que era e tão bem expressou nas últimas palavras que terá dito antes de falecer, resumindo a vida no amor a Cristo, esta referência religiosa [de dar “a Deus o lugar que o coração humano não dispensa”] era propriamente dita, como adesão convicta ao Fundador do cristianismo. E não demorou em advertir-nos para o perigo duma fé diluída, que O esquecesse ou nem O conhecesse de facto. Uma fé mais adjetiva do que substantiva, quase como referência sociocultural que sobrasse”, observou D. Manuel Clemente.

Numa Sé de Lisboa cheia de fiéis, o Cardeal-Patriarca tinha começado por destacar que “o percurso pessoal e pontifical de Bento XVI demonstram com excecional clareza o exercício da justiça, assim globalmente considerada e aplicada”. “Dar todo o lugar a Deus para dar também toda a atenção ao próximo, foi o que constantemente nos exortou a fazer, homilia a homilia, encíclica a encíclica, atitude a atitude. Mesmo a sua insistência em recusar o indiferentismo ou o esquecimento de qualquer dimensão humana, incluindo a religiosa, vai nesse sentido. O lugar de Deus e a referência ao absoluto não são dispensáveis, se não quisermos de seguida dispensar ou relativizar a realidade no seu conjunto ou cada pessoa no seu particular”, frisou.

 

Fé com “fundamento”

Perante muitos jovens com a t-shirt do movimento ‘Eu Acredito’, que se juntou para receber Bento XVI em Portugal, em 2010, o Cardeal-Patriarca recordou depois essa “memorável viagem”, de 11 a 14 de maio, que passou por Lisboa, Fátima e Porto. “Logo na homilia no Terreiro do Paço, nesse mesmo dia 11 de maio e com toda a clareza, advertiu-nos com palavras que não perderam atualidade: «Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista». Face a isso, não tardou a exortar-nos a algo de essencial e urgente, logo captado com entusiasmo pela multidão que transbordava daquela grande praça, sobretudo os jovens: «É preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do Cristianismo. […] A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto, a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós»”, lembrou.

D. Manuel Clemente percorreu os principais momentos desta visita ao nosso País e terminou com palavras de Bento XVI na partida para Roma: “«Por experiência própria e comum, bem sabemos que é por Jesus que todos esperam». Foi esta convicção que explicou a sua constante reflexão, bem como a fecundidade do seu ministério. Mesmo na última década, em que viveu retirado, mas não alheado, da vida da Igreja e do mundo, em completo acatamento do ministério do seu sucessor. Como quem sente o dever de partilhar quanto lhe preenche a inteligência e o coração. Ouvimos no Evangelho: «Se o grão de trigo lançado à terra não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto». Nos noventa e cinco anos da sua existência humana, Ratzinger foi grão de trigo semeado e partilhado. – Vivamos agora do seu muito fruto!”, recomendou o Cardeal-Patriarca de Lisboa.

 

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Jovens de Lisboa dizem ‘Obrigado Bento XVI’

Após a Missa de sufrágio na Sé, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, presidiu a uma vigília de oração pelo Papa Emérito. Este momento de oração com os jovens teve como mote ‘Obrigado Bento XVI’ e foi organizado pelo Serviço da Juventude do Patriarcado de Lisboa / COD Lisboa (Comité Organizador Diocesano).

 

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Mensagem do Cardeal-Patriarca

Bento XVI deixa-nos um grande legado, do qual destaco, primeiro, a lucidez com que seguia todos os debates culturais e religiosos e a clareza com que se pronunciava a seu propósito, oralmente ou por escrito, com crentes ou não crentes.

Depois, a centralidade que sempre deu à Pessoa de Jesus Cristo, como fulcro e norma da fé da Igreja, bem como nas suas fecundas considerações sobre o amor e a caridade.

Finalmente, a determinação com que levou por diante a vida interna da Igreja e com que decidiu resignar, quando concluiu que já não estava em condições para exercer o ministério.

Em suma, um legado de inteligência, determinação e liberdade.

Deus o guarde e nos ilumine no seguimento do seu exemplo!

Lisboa, 31 de dezembro de 2022

+ Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa

 

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Papa Francisco: “Bento XVI foi nobre e gentil”

O Papa Francisco recordou o antecessor. “Falando de gentileza, neste momento o meu pensamento vai espontaneamente para o caríssimo Papa Bento XVI, que nos deixou esta manhã. Com comoção recordamos a sua pessoa tão nobre e tão gentil”, declarou o Papa, na celebração das Vésperas e Te Deum de ação de graças pelo ano que passou, a 31 de dezembro. Na Basílica de São Pedro, Francisco manifestou ainda gratidão pelo trabalho e sacrifício de Bento XVI. “Sentimos no coração tanta gratidão: gratidão a Deus por tê-lo dado à Igreja e ao mundo; gratidão a ele, por todo o bem que cumpriu, e sobretudo pelo seu testemunho de fé e oração especialmente nestes últimos anos de vida retirada. Só Deus conhece o valor e a força da sua interseção, dos seus sacrifícios oferecidos pelo bem da Igreja”, sublinhou.

 

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“Permaneçam firmes na fé!”

No seu testamento espiritual, escrito originalmente em alemão, a 29 de agosto de 2006, o Papa Emérito Bento XVI agradece, antes de mais, a Deus e depois à família – ao pai, à mãe, à irmã e ao irmão. Agradece ainda a amigos e colaboradores, fala com carinho da Alemanha e da sua segunda pátria, Itália. Aos compatriotas, faz uma exortação, extensiva a todos: “Não vos distraiais da fé. Permanecei firmes na fé! Não vos deixeis confundir! Muitas vezes parece que a ciência – as ciências naturais por um lado e a pesquisa histórica (em particular a exegese da Sagrada Escritura) por outro – são capazes de oferecer resultados irrefutáveis, em contraste com a fé católica”.

No texto divulgado pelo Vaticano, que é considerado uma pequena ‘aula’ de Teologia, o Papa Emérito perde perdão – “a todos aqueles a quem prejudiquei de alguma forma, peço sinceramente perdão” – e deixa uma garantia. “Jesus Cristo é realmente o caminho, a verdade e a vida – e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é realmente o seu Corpo”, escreveu Bento XVI. “Por fim, peço humildemente: rezem por mim, para que o Senhor, apesar de todos os meus pecados e faltas, me acolha nas moradas eternas. Para todos aqueles que me foram confiados, vai a minha oração sincera, dia a dia”, conclui.

O corpo do Papa Emérito esteve na Basílica de São Pedro, desde segunda-feira, 2 de janeiro. Ao longo dos três dias, foram milhares os fiéis que se quiseram despedir de Bento XVI, cujo funeral foi presidido pelo Papa Francisco, a 5 de janeiro, na Praça de São Pedro.

 

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“O Presidente da República sublinhou que ao longo dos seus oito anos de Pontificado, o Papa Bento XVI permaneceu um símbolo de estabilidade e de defesa dos valores da Igreja Católica: o Amor ao próximo, a Solidariedade e o apoio aos mais pobres e aos mais desprotegidos e a importância do Perdão e da Reconciliação.”

Mensagem de condolências do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a Sua Santidade o Papa Francisco

 

“A morte de Bento XVI mergulha em luto profundo a Igreja Católica e os seus fiéis. Homenageio a sua memória, destacando a estatura intelectual e o gesto fundacional da resignação.”

Augusto Santos Silva, presidente da Assembleia da República

 

“Quero exprimir os meus votos de pesar a toda a comunidade católica pelo falecimento do Papa emérito Bento XVI. Recordo a honra de o ter acolhido em Lisboa, quando era presidente da Câmara, e a bela celebração a que presidiu no renovado Terreiro do Paço.”

António Costa, Primeiro-Ministro

 

“Um homem que nos deixou o legado da verdade. A sempre busca pela verdade como modo de vida. Um exemplo para todos nós.”

Carlos Moedas, presidente da CM Lisboa

 

“A coragem de ter pedido a resignação quando já não sentia condições para continuar o exercício do seu ministério fica como legado e lição para a história da Igreja na compreensão coerente do ministério petrino. As dioceses e todas as comunidades cristãs e religiosas reconhecem o carinho que Bento XVI nutria por Portugal, nomeadamente aquando da sua significativa visita em 2010, e manifestam a sua união neste momento de dor e de esperança, com tempos de oração e outras expressões agradecidas, invocando o eterno descanso de Bento XVI junto de Deus Pai.”

Comunicado da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)

 

“Bento XVI é um homem que, na sua biografia, conta com uma posição fundamental, sobretudo nos campos da racionalidade, da relação entre razão e fé. É um Papa que me habituei a ler como indicador da teologia do Vaticano II, na sua seriedade e fundamentação, no horizonte da fé para o homem moderno.”

D. José Ornelas, presidente da CEP

 

“Para a juventude, é uma figura muito especial, recebeu o legado do Papa João Paulo II, fundador das Jornadas Mundiais da Juventude. Temos que agradecer muito ao pontificado do Papa Bento XVI, naquilo que à juventude diz respeito.”

D. Américo Aguiar, presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023

 

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Fotos da Missa de sufrágio e da vigília de oração por Bento XVI

Missa de sufrágio e vigília de oração por Bento XVI

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por Diogo Paiva Brandão e Vatican Media
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