DOMINGO IV DO ADVENTO Ano A
“A Virgem conceberá e dará à luz um Filho,
que será chamado ‘Emanuel’,
que quer dizer ‘Deus connosco’.”
Mt 1, 23
A ambição de prever, conhecer e dominar tudo deixa pouco espaço à surpresa. E acabamos por exigir que a vida e as suas circunstâncias tenham de ser como desejamos. Da natureza (com as suas forças) às relações humanas (com a particularidade de cada pessoa) não é importante dar espaço às surpresas: as tristes e as alegres, as menos boas e as boas? É com elas que também crescemos e nos abrimos aos outros e a Deus.
O nascimento de Jesus de uma virgem permanece um acontecimento incontornável do poder e da surpresa de Deus. É certo que Ele gosta de fazer as coisas de um modo simples, sem “dar nas vistas”, íntimo e quase inacessível aos olhares que tudo tentam explicar. Mas a virgindade de Maria é sinal do seu poder e da sua força. Num tempo em que tudo o que tem a ver com virgindade, castidade, pureza, parece ser “discurso moralista e do passado” é surpreendente escutar de novo estes textos onde a perplexidade de José e o “sim” de Maria nos interpelam. Pois o que está em causa não é uma questão da “perfeição” moral de Maria, nem um desprezo da sexualidade humana. É Deus a realizar a maravilha de ser “Emanuel”, “Deus connosco”, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. E isso escapa à nossa racionalização, ao desejo imediato de possuir e dominar tudo!
A pretensão do domínio humano chega até ao desejo de “controlar Deus”. Colocá-Lo dentro daquilo que é possível, racionalizar o que faz e diz, chamá-Lo só quando é necessário. E Deus fala-nos e revela-se muito pela surpresa! A surpresa desinstala, abre horizontes, convida ao diálogo e à partilha, liberta-nos da ânsia desmesurada de controlar tudo. Pois até a ousadia da fé passa por aquilo que não conseguimos dominar, e pela surpresa de um “amor maior”!
Na virgindade da Mãe de Jesus, e no amor pleno de José a Maria e a Jesus, vejo o imenso convite à surpresa que a fé necessita. Interpretações menos felizes ao longo da história vieram desvirtuar a originalidade (porque tem a fonte na “origem” que Deus é, do amor vivido por Maria e José). Amor radicalmente novo, imagem maravilhosa do projecto de Deus, transcendência que irrompe no tecido humano “tão prisioneiro da posse”. Este nascimento vem trazer a plenitude da humanidade: em Jesus somos “renascidos” como Família de Deus. Quantas maravilhas deixamos de ver quando só vemos o que queremos? Quantas descobertas deixamos de fazer quando aceitamos só o possível? Quantos “natais” deixam de o ser porque nos falta “o pouquinho de fé”, e coragem para o “amor maior”?
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