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António Bagão Félix
Do que precisamos é de uma verdadeira revolução espiritual

Há anos, aqui citei um pensamento do antigo Arcebispo de Paris, Cardeal Pierre Veuillot (1913-1968, tendo participado activamente no Concílio Vaticano II) sobre a Igreja: “tudo tem de ser puro, puro, puro. Do que precisamos é de uma verdadeira revolução espiritual.”

Lembrei-me desta asserção a propósito da situação difícil por que passa a Igreja no Mundo e também em Portugal. São tempos que exigem discernimento evangélico, radical sensibilidade, completa coragem, autêntica humildade, plena misericórdia, sabedoria e exemplaridade. Tempos que reclamam a primazia do espiritual sobre o mundanismo desertificador, da caridade cristã sobre o racionalismo secularista, da essência sobre a circunstância, da verdade sobre a aparência, de valores e princípios firmes sobre o relativismo, do bem comum sobre o subjectivismo. Precisamos todos de oxigénio espiritual e de uma confluência exigente e permanente de fé, espiritualidade e ética.

Relativamente a abusos sobre crianças e jovens no seio da Igreja, sinto vergonha, como pessoa, e amargura e perplexidade, enquanto católico. Não me sossegam respostas em público baseadas apenas na lei dos homens e não nos Mandamentos de Deus. Não me satisfazem declarações mais ou menos opinativas sobre um problema que demanda clareza e rigor. Não me deixo encantar por inferências estatísticas descabidas ou por explicações do tipo “noutros tempos era diferente”. Não me aquietam intervenções mediáticas atabalhoadas, impreparadas, que, não raro, são de um teor temporal que pouco ou nada as distingue de uma outra qualquer intervenção pública. Não me agradam posições ou omissões tacticistas, por vezes com preocupações de “popularidade”, que enfraquecem a missão da Igreja de Cristo, ou que até indiciam falta de solidariedade no seu seio (de que o “abandono” a que foi sujeito D. Manuel Clemente é, infelizmente, um exemplo recente).

É importante não ter medo da verdade por mais dolorosa que seja, assumir integralmente as consequências das situações e garantir a esperança baseada na prevenção, como expressão de exigência e de discernimento e na reparação como acto de justiça e de responsabilidade. Foi isso que esteve na base da criação da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica. Que eu saiba a única que existe no nosso país, embora seja presumível a incidência de casos igualmente hediondos em outras instituições ou áreas (para além do ambiente familiar ou de vizinhança). Porque não cria o Estado uma Comissão semelhante no seio escolar, desportivo, ou social? Porque não olham outras igrejas e organizações da sociedade civil para o seu interior?

Sem pôr em causa o importante papel dos media na denúncia de situações absolutamente intoleráveis ou criminosas, verifica-se uma voracidade mediática que, enquanto tal, tudo generaliza, tudo igualiza no e para o mal. De uma maneira directa ou larvar, induz-se até a ideia de que só no seio da Igreja Católica se verificaram casos de pedofilia, assim se alimentando forças e movimentos que, mais directa ou mais insidiosamente, procuram desacreditá-la.

Não esqueçamos também que a religião não é uma soma de opiniões. Nem a Igreja é um projecto de mero marketing ou de ilusório sincretismo, conforme as solicitações da moda e sensível à pressão de pretensos ateísmos humanitários.

Precisamos de sacerdotes e de bispos que nos ajudem a salvar a alma, nos ajudem a sermos melhores pessoas, a revigorar a nossa fé. Precisamos da excelência da exemplaridade como o caminho mais curto para o bem. Como dizia Albert Schweitzer, “dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar positivamente os outros. É a única.” Precisamos de exprimir a primazia do anúncio de Jesus Cristo e de anunciar “a novidade do Evangelho com ousadia (parrésia), em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contracorrente”, como escreveu o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Precisamos de uma expressão renovada e renovadora das Bem-Aventuranças, como programa e retrato de Jesus. Precisamos na nossa Igreja de saber ir ao encontro da paz edificada no respeito integral pelo outro, em especial pelos mais frágeis e vulneráveis, afastando todas as situações que negam a dignidade transcendente da pessoa humana, seja em que circunstância for.  

Como nos disse João Paulo II (No início do novo milénio), “a Igreja, contendo pecadores no seu seio, é simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação.”

 

António Bagão Félix

(texto escrito com a grafia anterior ao AO 90)