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“Unamo-nos ao povo ucraniano, tão nobre e mártir”
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O Papa Francisco mostrou-se impressionado com relatos do cardeal Krajewski, seu enviado a Ucrânia, que sofreu também um ataque. Na semana em que recordou o Cazaquistão, o Papa apelou à Arménia e ao Azerbaijão para respeitarem o cessar-fogo e deixou palavras de paz.

 

1. O cardeal Krajewski telefonou ao Papa para lhe contar os horrores da guerra, testemunhar o que tem visto e vivido nestes dias na Ucrânia, onde esteve pela quarta vez. O ‘cardeal do Papa’, como lhe chamam na Ucrânia, visita de novo este país para fazer chegar àquela população o apoio do Santo Padre. Os relatos divulgados pelo cardeal na plataforma Vatican News revelam a sua experiência junto das valas comuns de Izyum, a 150 quilómetros de Kharkiv. “Assistimos ali a uma celebração onde 50 homens jovens, sobretudo, polícias, bombeiros, soldados, com fatos de macaco brancos, escavavam e tiravam das valas comuns, os cadáveres dos pobres ucranianos, mortos há três ou quatro meses e ali sepultados”, relata. “Bem sei que há guerra e a guerra não conhece a piedade, por isso, também há mortos. Mas ver assim tantos mortos numa só zona é uma coisa difícil de contar e de explicar. Houve, no entanto, uma coisa que me tocou muito: estes jovens ucranianos tiravam para fora os cadáveres de um modo tão delicado, tão silencioso, que parecia uma celebração. Ninguém falava, apesar de estarem ali umas dezenas pessoas. Todos em silêncio, com um respeito incrível pelo mistério da morte. Foi, na verdade, um momento tocante, ver como pegavam nos cadáveres. Parecia que o estavam a fazer pela própria família, pelos próprios pais, filhos e irmãos”, refere Krajewski, comovido.

O enviado do Papa refere que durante umas três horas rezaram em silêncio, enquanto os homens retiravam os cadáveres. “Não podíamos fazer outra coisa. Ali não há palavras. Depois, estávamos a poucos quilómetros dos russos e ninguém resmungava, ninguém mostrava ódio. Foi uma celebração, defino-a assim, uma celebração de misericórdia. Encontrei homens que mostraram a beleza que, de vez em quando, se esconde nos nossos corações. E mostraram esta beleza humana, exatamente ali, no sítio mais terrível, onde se poderia pensar sempre e só em vingança, mas em vez disso, não. Lembrei-me então destas palavras da Sagrada Escritura: é preciso sempre vencer o mal com o bem”, conta.

Esta quarta-feira, 21 de setembro, após a audiência-geral de quarta-feira, Francisco aludiu ao relato do seu enviado e voltou à situação “terrível” na Ucrânia, provocada pela invasão russa, acrescentado que recebeu relatos de “monstruosidades”. “Contou-me a dor daquele povo, as selvajarias, as monstruosidades, os cadáveres torturados que se encontram”, indicou o Papa, lembrando que o cardeal Konrad Krajewski, na sua quarta missão ao país, tem estado a distribuir ajuda na zona de Odessa e nas regiões orientais da Ucrânia. “Gostaria de tornar presente a terrível situação da martirizada Ucrânia. Unamo-nos a este povo, tão nobre e mártir”, pediu.

 

2. O cardeal Konrad Krajewski, enviado especial do Papa à Ucrânia, escapou ileso a um tiroteio russo contra o comboio humanitário em que circulava, no passado sábado, 17 de setembro. O portal ‘Vatican News’ relata um “dia difícil” na quarta missão do esmoler pontifício em território ucraniano. “Envolvido num tiroteio, continuou a levar ajuda, comida, rosários e a bênção de Francisco para que ninguém se sinta sozinho nesta guerra absurda”, pode ler-se. O cardeal estava acompanhado por dois bispos, um católico e um protestante, e um soldado, para distribuir comida numa zona do conflito onde só os militares têm entrado. Na segunda das etapas planeadas, o grupo foi atingido por tiros. “Pela primeira vez na minha vida, não sabia para onde fugir, porque não basta correr, é preciso saber para onde”, confessou o cardeal Krajewski.

Apesar dos disparos, o grupo continuou a sua missão, mas o enviado especial do Papa admite que “não há lágrimas nem palavras” perante esta situação. “Só se pode rezar”, concluiu.

 

3. Na audiência-geral de quarta-feira, o Papa recordou a recente viagem ao Cazaquistão, destacando a importância de “colocar as religiões no centro do compromisso para a construção de um mundo onde nos escutamos e nos respeitamos na diversidade”. “Isso não é relativismo, não. É escutar e respeitar”, salientou.

Na Praça de São Pedro, no passado dia 21 de setembro, Francisco lembrou também o Dia Mundial do Alzheimer. “Hoje decorre o Dia Mundial do Alzheimer, uma doença que atinge tantas pessoas e que por causa dessa patologia são colocadas à margem da sociedade. Rezemos pelos doentes de alzheimer, pelos seus familiares e por aqueles que cuidam deles, para que sejam sempre apoiados e ajudados”, assinalou.

 

4. O Papa Francisco apelou à Arménia e ao Azerbaijão para que respeitem o cessar-fogo, sublinhando que “a paz é possível quando se calam as armas e começa o diálogo”. “Manifesto a minha proximidade espiritual às famílias das vítimas e exorto as partes a respeitar o cessar-fogo, tendo em vista o acordo de paz”, observou o Papa, após a recitação do Angelus, no passado Domingo, 18 de setembro.

 

5. O Papa despediu-se, a 15 de setembro, do Cazaquistão com renovadas palavras de paz. Junto da pequena comunidade católica, reunida na Catedral Mãe de Deus do Perpétuo Socorro, o Papa elogiou a herança da fé, transmitida de avós e pais para filhos, por vezes com grande sofrimento, mas insistiu que não basta a recordação do passado para a fé permanecer viva. O futuro da fé implica “sair de si mesmo” e “dar espaço aos outros”, afirmou Francisco, pedindo a todos que deem testemunho e sejam “homens e mulheres de comunhão e de paz”.

O fim desta visita apostólica coincidiu com o encerramento do VII Congresso dos líderes religiosos mundiais. O Papa proferiu o discurso de encerramento, reafirmando a sua aposta no diálogo e encontro de culturas e religiões, face à “loucura insensata de guerra” e da persistência do ódio e fundamentalismos.

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