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Sinodalidade
Karol Wojtyla e o Sínodo dos Bispos (I Parte)
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A experiência sinodal, proposta pelo Concílio, encontra-se, desde o seu início, associada à vida de São João Paulo II. Como se trata de um percurso de mais de quarenta anos, quisemos distinguir dois períodos, utilizando para esse efeito a data da sua eleição Papal. Neste sentido, procuraremos oferecer uma leitura, que é em si mesma necessariamente superficial, devido à colossal dimensão e valor da história do Papa polaco e da instituição do Sínodo dos Bispos.

Para São João Paulo II, o Concílio Vaticano II foi uma experiência fundante do seu ministério. Ele afirma-o, na obra “Atravessar o limiar da Esperança”, quando refere: «Foi-me dado participar no Concílio do princípio ao fim, com razão se pode ver aí um especial dom de Deus». Partindo da análise do seu Votum (nota pedida pelo Papa a todos os Bispos na fase antepreparatória) e das intervenções conciliares do Bispo Wojtyla, Richi Alberti identifica quatro elementos essenciais que condicionarão o pontificado de São João Paulo II: em primeiro lugar, a paixão pelo homem que brota do desígnio salvífico da Trindade; em segundo lugar, e derivada da primeira, a sua reflexão teológica é marcada pela «eclesiologia teológica», que faz depender a missão da Igreja das missões divinas; em terceiro lugar, o personalismo cristão que se revela na conexão indissolúvel entre verdade sobre a vocação do homem e a resposta livre do homem à proposta de Deus; o quarto elemento é o mais significativo para a nossa reflexão, pois indica o testemunho como a modalidade pela qual a Igreja realiza a sua missão, através de todos e cada um dos fiéis cristãos. Todas estes elementos se encontram espelhados no seu pontificado iniciado a 16 de outubro de 1978, mas este último já se encontrava presente no dinamismo sinodal saído do Concílio, no qual tinha vindo a adquirir um papel cada vez mais relevante.

A dinâmica sinodal iniciada pelo Concílio possuiu, para o Bispo de Cracóvia, uma dimensão diocesana, com a promoção do “Sínodo de Cracóvia” [1972-1979]. Weigel afirma que o Sínodo, baseando-se no conceito de Igreja como comunhão de crentes, proposta pelo Concílio, alcançou um tríplice objectivo: o reavivar da experiência do Concílio, pelo fortalecimento da vida apostólica da Igreja, o aprofundamento da fé, a revitalização da missão e a consciência da liberdade religiosa, pela promoção do trabalho e reflexão própria na Igreja, para além dos condicionamentos estatais.

 A dimensão diocesana era reflexo da dimensão universal, na qual se inclui a sua participação no Sínodo dos Bispos [1969/1971/1974/1977], seguindo de perto a Paulo VI.

O percurso do Bispo Wojtyla inicia-se logo com o primeiro Sínodo que teve a sua primeira edição em 1967. Apesar de ter sido convocado para este Sínodo, o Governo proibiu o cardeal Wyszinski de sair do país e o Bispo Wojtyla recusou sair do país sem o cardeal, acompanhando desse modo a decisão dos bispos polacos. Em 1969, nomeado por Paulo VI, membro do primeiro encontro extraordinário, sobre a relação da Santa Sé com as conferências episcopais. O segundo encontro, realizado em 1971, discorreu sobre o tema do sacerdócio e da justiça social. No final do encontro, Wojtyla foi eleito para o Concilium do Sínodo, ou seja, para a comissão internacional que prepara os encontros. O Sínodo de 1974, que possuía como tema “A evangelização do mundo moderno”, teve como relator o Bispo Wojtyla. No final do Sínodo, segundo Weigel, os relatores, onde se incluía Wojtyla, não foram capazes de produzir um relatório que agradasse a todos os Bispos. Weigel justifica essa impossibilidade com a visão diferenciada que existia entre os bispos sobre o comunismo e as suas influências e consequências na história. As preposições foram ainda assim entregues ao Papa Paulo VI, que publicou, a partir delas, a Evangelii Nuntiandi. Assistiu-se ainda assim à sua reeleição para o Concilium do Sínodo. No ano de 1977, onde foi também o relator, o tema era a catequese, tendo sido reconduzido no cargo. 

Para a noção Wojtyliana de Sínodo destacam-se a noção de comunhão e, como reflexo desta, a noção de colegialidade da qual é uma manifestação. A Colegialidade entendida não apenas como um estar juntos, mas na busca de uma penetração ainda mais profunda das relações interpessoais. Existia ainda em Wojtyla o entendimento de que esta comunhão, da qual a colegialidade episcopal é uma manifestação, está presente no Sínodo, mas é com ele promotora de uma comunhão e sinodalidade de toda a Igreja. As três categorias fundamentais para entender a sua reflexão são, segundo Richi Alberti: Communio eclesial, colegialidade dos bispos cum petro et sub petro, testemunho de fé pessoal, em nome da Igreja local, parecem ser as noções fundamentais que dão corpo ao pensamento de Karol Wojtyla sobre o Sínodo dos bispos.

A noção de comunhão, em Wojtyla, era entendida em sentido dinâmico, evidenciando a sua diversidade e pluralidade, embora sempre entendida numa tendência para unidade, cum pedro et sub pedro, ou seja, em unidade com o Sucessor de Pedro e sobre a sua direcção, assim o apresentou Wojtyla, no documento enviado à congregação geral de 15 de outubro de 1969. A comunhão é apresentada como dom e tarefa, tornando-se critério para as relações eclesiais, nas quais se denota uma reciproca imanência entre a Igreja Universal e Igreja local. O Sínodo apresenta-se ao mundo como que um sacramento de comunhão para toda a humanidade. A comunhão corresponde à caridade não apenas entre as pessoas, mas também entre as comunidades, e por isso parece ser maximamente própria e apropriada para toda a vida da Igreja.

O Papa João Paulo II pôde ainda promover sete outras Assembleias Gerais do Sínodo [1980, 1983, 1987, 1990, 1994, 2001, 2005]. Esta presença assídua e ritmada do Sínodo tornou-se um modo privilegiado de promoção da comunhão entre os bispos e com Pedro, respondendo assim ao pedido do Concílio, no número 5 do decreto Christus Dominus: «Este sagrado Concílio Ecuménico deseja que a veneranda instituição dos Sínodos e Concílios retome vigor, para se prover mais adequada e eficazmente ao incremento da fé e à Conservação da disciplina nas várias igrejas, segundo as exigências dos tempos».

Sobre os desenvolvimentos acontecidos durante o período de 1978-2005, procuraremos expor na segunda parte desta apresentação.

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