Por uma Igreja sinodal |
Marcas eclesiais inerentes à sinodalidade
O século XIX e a sinodalidade na Igreja católica
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Embora a definição de século seja a de um período de cem anos, do ponto de vista historiográfico as balizas podem ser um pouco menos circunscritas. Por exemplo, o historiador jesuíta John O’Malley considera a celebração do concílio Vaticano II o final do “longo século XIX” da Igreja católica. Neste breve exercício de observação da sinodalidade proponho um início deste século XIX o período da revolução francesa (1789-1802) e como seu termo a revolução bolchevique (1917). Neste intervalo de tempo temos de considerar três autores/atores e um acontecimento. No campo dos autores atores propõem-se os nomes de Johann Adam Möhler (1796-1838), Antonio Rosmini-Serbati (1797-1855) e John Henry Newman (1801-1890). O acontecimento foi a celebração do primeiro concílio do Vaticano (1870) pela Igreja católica romana. Estas são as coordenadas a partir das quais propomos uma reflexão sobre a criação de condições para uma “redescoberta” pela Igreja católica da sinodalidade.

Johann Adam Möhler é uma figura incontornável para a história da Eclesiologia contemporânea. Em 1825, este professor na faculdade de Teologia da Universidade de Tübingen publicou uma obra intitulada Sobre a unidade da Igreja ou o princípio do catolicismo segundo os Padres dos três primeiros séculos. Além da novidade de pensar a Igreja a partir da sua história, algo aparentemente banal para nós hoje, Möhler propunha pensar as origens da Igreja a partir da ação do Espírito Santo. No prefácio da obra o autor afirma: “gostaria de começar por aquilo que diz respeito à minha questão (a unidade da Igreja). O Pai envia o Filho, este envia o Espírito Santo, e é assim que Deus vem ao nosso encontro, nós vamos até Ele em sentido contrário: o Espírito Santo conduz-nos ao Filho e este conduz-nos ao Pai.” Uma dimensão importante a sublinhar na “redescoberta” da sinodalidade é a primazia importante a dar à dimensão pneumatológica da vida da Igreja.

António Rosmini-Serbati, um teólogo italiano e figura algo controversa, publicou em 1846 a obra As cinco chagas da Igreja. O livro foi escrito em 1832, mas o autor decidiu apenas publicá-lo por ocasião da eleição do Papa Pio IX. Uma das chagas apontadas por Rosmini era a das eleições episcopais se encontrarem sob domínio das autoridades estatais. O teólogo italiano defendia o regresso ao modo como a Igreja antiga elegia os seus bispos, isto é, com o sufrágio do povo e do clero. Em pleno século XIX, e com uma mentalidade eclesial muito marcada pela experiência de uma Igreja com uma forte configuração clerical, esta “redescoberta” e revalorização do povo cristão na escolha dos seus bispos foi uma semente para repensar a importância da sinodalidade.

O terceiro autor/ator proposto é o cardeal John Henry Newman. A sua biografia e bibliografia são vastas, em particular por estarmos na presença de um percurso de vida com início na comunhão anglicana, a qual abandonou para entrar na Igreja católica em 1845. Newman foi contemporâneo dos debates que conduziram à proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria. Foi nesse contexto que o teólogo inglês, mais tarde elevado a cardeal pelo Papa Leão XIII, defendeu a importância de se consultarem todos os fiéis em matéria de doutrina num artigo publicado na revista Rambler. No texto publicado pela primeira vez em Julho de 1859, mais tarde reeditado na introdução da obra Os arianos no século IV, Newman afirmava: “o dogma de Niceia não foi mantido em grande parte do século IV pela firmeza da Santa Sé, dos concílios ou dos bispos, mas pelo consensus fidelium.” Assim como Rosmini, também Newman deixou as sementes que levaram a um amadurecimento na Igreja católica sobre a necessidade do envolvimento e compromisso de todos os membros da Igreja nos dinamismos de vida eclesial.

Embora o primeiro concílio do Vaticano seja imediatamente associado à proclamação dos dogmas da infalibilidade pontifícia e do primado do bispo de Roma, a posição de Newman esteve presente e subjacente na preparação dos documentos. Alguns interpretaram a constituição apostólica Pastor aeternus num sentido de poder absoluto do Papa, contudo, como o afirma John O’Malley na obra Quando os bispos se reúnem, “o catolicismo é demasiado complexo, demasiado vasto, demasiado vagaroso e demasiado rico em tradições para funcionar no modo absolutista e incondicional de cima para baixo que os ultramontanos ferrenhos atribuíam à Pastor aeternus.

A celebração do segundo concílio do Vaticano foi o corolário deste processo pelo qual a Igreja católica foi “redescobrindo” algumas das marcas eclesiais inerentes à sinodalidade, em particular o papel do Espírito Santo e a participação ativa de todos os membros da Igreja.

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