Por uma Igreja sinodal |
Sinodalidade
Sinodalidade no mistério da Igreja
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Nestes tempos somos convidados a aprofundar a sinodalidade, não só do ponto de vista teórico, mas particularmente no âmbito do estilo, das práticas e das decisões. Esse é um desafio premente, como afirmou o Papa Francisco: «O mundo em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (Discurso no cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos,17 de outubro de 2015).

A sinodalidade é expressão da corresponsabilidade que todos na Igreja – leigos, religiosos, clérigos – são chamados a viver. Esta expressão da corresponsabilidade assumiu diversas formas ao longo dos séculos de história da Igreja e nos dias de hoje encontra a sua expressão mais comum nos órgãos colegiais (desde o Sínodo dos Bispos ao Conselho Pastoral Paroquial, entre outros). Ao mesmo tempo, a sinodalidade enquanto método deve compaginar-se com outras expressões da estrutura da Igreja: «A estrutura da Igreja é sinodal, colegial e primacial. Na harmonia e equilíbrio entre esses níveis e dimensões joga-se em grande medida a articulação que acompanha a figura da Igreja que há de evangelizar a civilização mundial do terceiro milénio» (E. Bueno de la Fuente, Panorama da eclesiología actual, 55).

A sinodalidade deve ser expressão da eclesiologia de comunhão. Neste sentido, encontra o seu modelo na comunhão trinitária. Não há sinodalidade fora do caminho de comunhão e esta compreende-se à luz da vida trinitária. Escrevia J. Ratzinger a respeito da eclesiologia da constituição sobre a Igreja do II Concílio do Vaticano: este «pretendia claramente inserir e subordinar o discurso da Igreja ao discurso de Deus, queria propor uma eclesiologia no sentido propriamente teo-lógico» (L’ecclesiologia della costituzione ‘Lumen gentium’, 67). Assim também a sinodalidade só se compreende à luz da comunhão trinitária e em função desta.

Nesta consciência, podemos encontrar o núcleo mais profundo do que significa a sinodalidade. Não se trata de uma afirmação de maiorias ou minorias, nem uma expressão «eclesiástica» dos princípios democráticos do regime político. A sinodalidade deve ser a expressão da identidade batismal, em que cada um se descobre e reconhece como membro do Corpo de Cristo, irmão de muitos irmãos, e que por isso tem de responder responsavelmente à pertença à família dos filhos de Deus. Neste sentido, implica ultrapassar uma perspetiva passiva em relação aos leigos e reconhecer o seu papel fundamental. É necessário ultrapassar aquela visão a respeito do leigo que se condessava no tempo de John Henry Newman, e que este critica: «Pray up, pay up and shut up». A sinodalidade é, deste modo, uma oportunidade para crescermos enquanto Igreja consciente da sua responsabilidade no mundo, na paróquia, na família, etc..

Por tudo isto, parece-me haver três vetores fundamentais para crescermos na consciência do que é a sinodalidade:

1. Em primeiro lugar, é necessária uma experiência de discípulos. Um teólogo como o norte-americano Avery Dulles, S.J., encontrou neste modelo um instrumento capaz de compreender elementos de diversos modelos eclesiais e um fundamento para o entendimento do que é a Igreja. Enquanto discípulos encontramos em Jesus e na Igreja uma nova família, constituída por laços espirituais, mais fortes que os da carne e do sangue. Ao mesmo tempo, o discipulado mostra como estamos a caminho, como escreve aquele teólogo: «O discípulo é por definição alguém que não chegou ainda, um aprendiz tentando compreender palavras estranhas e desvendar experiências intrigantes» (A Church to Believe In, 10). Sinodalidade é caminho de descoberta de Deus e da sua vontade e da Igreja enquanto comunidade dos discípulos de Cristo, filhos de Deus.

2. Em segundo lugar, a sinodalidade aponta para uma necessária experiência vocacional. Antes de mais, a Igreja descobre-se como assembleia de homens e mulheres convocados por Deus, chamados para constituir a família dos filhos de Deus. Cada um deve descobrir no seu íntimo a sua vocação e viver de acordo com a graça que recebeu. Assim, cada um descobre-se em primeiro lugar como discípulo de Cristo e, assim, pode avançar rumo ao amadurecimento da fé na relação com Cristo. Não há verdadeira maturidade sinodal sem concreto caminho vocacional. Não deixa de ser curioso o que Dulles assinala a respeito do discipulado no entendimento da autoridade na Igreja: «Os pastores devem ser próximos de Cristo em ordem a liderar, mas devem também ser vistos como discípulos sob a autoridade do Supremo Pastor» (A Church to Believe In, 208). Ou ainda, noutro lugar: «Poder e autoridade na Igreja deviam ser dados apenas a discípulos maduros e fiéis» (A Church to Believe In, 11).

3. Em terceiro lugar, encontramos o permanente apelo à conversão. Se o termo συνοδία aparece somente em Lc 2, 44, também é verdade que encontramos em diversos outros momentos dos Evangelhos momentos em que Jesus se coloca a caminho com os seus discípulos. De forma particular, entre Mc 8, 22 e 10, 52, onde a palavra grega ὁδός aparece sete vezes em menos de três capítulos, constantemente somos informados que Jesus se coloca a caminho, ou então fala aos discípulos no caminho. Os biblistas chamam a este o segmento do caminho. A caminho com Jesus, podemos ser curados da cegueira, se somos levados até Jesus (cf. Mc 8, 22) ou se gritamos (cf. Mc 10, 47). Neste caminho que o evangelista Marcos convida a fazer, encontramos um processo de conversão: Pedro professa a fé, Jesus anuncia a Paixão e apresenta as condições para O seguir. A transfiguração alenta a continuar o caminho apesar do escândalo da cruz e apresenta uma criança como modelo do discípulo. Finalmente, apresenta o projeto divino para o matrimónio, anuncia a necessidade da pobreza e que os que na Igreja são chamados a exercer poder devem ser servos. Toda esta conversão para que possa acontecer com cada um dos que se coloca a caminho com Jesus (outra forma de dizer sinodalidade) possamos «recuperar a vista e seguir [Jesus] no caminho» (Mc 10, 52).

Na forte experiência sinodal, também as nossas comunidades em geral e cada um dos leigos em particular descobrirá este estilo sinodal de ser Igreja. De forma particular, na nossa vida pastoral, temos de aprender a caminhar em conjunto com todos, quer os que vivem conscientemente a vida de fé, quer aqueles que sempre estiveram afastados ou se estão a afastar. «O ministério mais doloroso de um sacerdote é caminhar com as pessoas quando estas se afastam da Igreja e refutam os seus ensinamentos» (T. Radcliffe, Cosa significa essere sacerdoti oggi?), mas precisamente aí encontramos o permanente apelo de Cristo a pormo-nos a caminho e a escutar o outro, para o compreender e para o conduzir a Deus.

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