Por uma Igreja sinodal |
Sínodo dos Bispos
A Sinodalidade no Antigo Testamento: uma propedêutica
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O Jornal VOZ DA VERDADE inicia, com este artigo do padre Daniel Nascimento, uma nova secção intitulada ‘Por uma Igreja sinodal’. Quinzenalmente, no primeiro e no terceiro Domingo de cada mês, vai ser publicado um artigo sobre o processo sinodal convocado pelo Papa Francisco para toda a Igreja, numa parceria com o secretariado diocesano do Sínodo.

 

“Quereis seguir o Senhor, Deus de Israel, Deus dos vossos pais, que vos libertou da escravidão no Egipto, e vos trouxe até esta terra, onde corre leite e mel? Atenção! Trata-se de um caminho difícil; sereis tentados a desistir, a seguir outros caminhos mais fáceis! Quereis mesmo fazer este compromisso com o Senhor?” Com palavras semelhantes a estas, Josué, sucessor de Moisés na liderança do povo hebreu, interpela o povo reunido em Siquém, pouco depois da entrada na Terra Prometida, desfecho de um longo caminho de dúvidas, rebeliões e dificuldades de todo o tipo. Podemos ler este diálogo no capítulo 24 do livro de Josué, onde o próprio Josué, que Deus tinha constituído como líder, não se furta à discussão com o povo reunido em assembleia: todas as tribos, todos os chefes, juízes, anciãos e oficiais (cf. Js 24,1).

Sendo embora a sinodalidade, tal como a entendemos, um processo dentro do cristianismo, e, portanto, ausente do Antigo Testamento, ainda assim textos como Js 24 mostram-nos uma dinâmica essencial de qualquer percurso sinodal. Afinal de contas, um “sínodo” (syn + hodós) é um “caminho” (em grego, “hodós”) feito “com” (“syn”) outros, tomando a sério a liberdade e as escolhas daqueles com quem caminhamos. É isto que é narrado no capítulo em questão do livro de Josué: confirma-se uma aliança, não só de Israel com o seu Senhor, mas também de uns com os outros, na decisão livre e consciente de seguirem todos o mesmo Deus Libertador e Salvador (cf. Js 24,25). Assim, os textos basilares para a afirmação da identidade de Israel – não obstante a distância cronológica e teológica que os separa da Igreja – podem fornecer interessantes elementos de reflexão para o tema da sinodalidade, pensado no actual contexto eclesial. 

Este olhar justifica-se na medida em que, no caminho para a Terra Prometida, tal como podemos ler nos livros que compõe o Pentateuco e também no livro de Josué, Israel assume-se como um povo escolhido, ou melhor, chamado por Deus. Isto leva-o a constituir-se como comunidade reunida: uma “qahal”, termo hebraico que significa precisamente “assembleia”, e que foi vertido nas antigas traduções gregas sobretudo pela palavra “ecclesia”. Sendo Israel enquanto povo uma “qahal / ecclesia” de Deus, então não há só uns a mandar e outros a obedecer, pois esta assembleia, ainda que de forma limitada, é um corpo com diferentes funções. Exemplos claros desta dinâmica são os momentos em que Moisés constitui um grupo de juízes para o auxiliar (Ex 18,13-26), ou quando Deus pede a Moisés que reúna um grupo de anciãos, que são capacitados pelo próprio Senhor para a sua tarefa de governo do povo (Nm 11,16-30).

Israel é, portanto, uma comunidade a caminho, fisicamente e espiritualmente falando. Marcado pelo pecado, muitas vezes desanima, perde ânimo, rebela-se não poucas vezes contra a autoridade dos seus líderes (e até contra Deus). Mas não deixa de caminhar! O livro dos Números, quarto livro do Pentateuco, pode bem ilustrar isto. O título da obra alude a dois grandes recenseamentos, um primeiro logo no início do livro, um outro no capítulo 26. Enquanto na primeira contagem o povo recenseado está ainda no início da sua longa travessia pelo deserto (no segundo ano, para ser mais preciso), o segundo censo tem lugar no quadragésimo ano dessa travessia. É já uma outra geração que se prepara para entrar em Canaã, a Terra Prometida por Deus, porque a primeira era uma geração rebelde, impreparada para trilhar os caminhos do Senhor. Será a geração seguinte a ter a oportunidade de escolher se quer ser fiel à palavra d’Aquele que os chamou a sair das trevas do pecado para a luz da salvação. A travessia de quarenta anos pelo deserto não foi, portanto, um castigo arbitrário de um deus caprichoso; antes, foi Deus a levar a sério as (más) decisões do povo. Um Deus que ama o Seu povo. Por isso, um Deus que respeita a liberdade do Seu povo.

Neste sentido, o Antigo Testamento sugere à Igreja de hoje que caminhe em conjunto, com responsabilidade e liberdade. Para tal, é imprescindível que nos escutemos uns aos outros. Que respondamos, como o povo a Josué, “Sim, quero seguir o Senhor”.

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