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Nigéria: ataques de vingança?
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Menos de dois meses depois da crise étnico-religiosa que atingiu a região de Jos, no centro da Nigéria, a 17 de Janeiro, uma série de ataques tirou a vida a cerca de 500 pessoas nas aldeias de Dogon Nahawa, Ratsat e Zot Foron.

Na semana passada, o Papa dirigiu-se à população da Nigéria, lamentando a morte de tantas pessoas, incluindo crianças: "Mais uma vez, repito que a violência não resolve os conflitos, mas somente aumenta as trágicas consequências".

Bento XVI pediu às autoridades civis e religiosas para que trabalhem pela segurança e pela pacífica convivência de toda a população.

O Arcebispo de Jos emitiu um relatório que apresenta os ataques do início deste mês como represálias pela violência do início deste ano. D. Ignatius Kaigama assinala que muitas pessoas acreditam que os atacantes dos incidentes mais recentes são muçulmanos Fulani, do Estado vizinho de Bauchi.

Pastores da etnia Fulani invadiram as casas, matando todos quantos encontraram pela frente. Já em Janeiro, os confrontos inter-religiosos provocaram 326 mortos, um incidente que foi considerado como uma acção organizada para assassinar muçulmanos.

Desde 1999, ano em que foi implantado a “sharia” (lei islâmica), a Nigéria tem registado confrontos envolvendo cristãos e muçulmanos, que já provocaram a morte de mais de 12 mil pessoas em 12 Estados do Norte do país.

Várias organizações nacionais e internacionais, como a Organização da Conferência Islâmica (OCI), repudiaram a onda de violência e lançaram um apelo para a reconciliação entre cristãos e muçulmanos.

O Arcebispo Kaigama escreveu a todas as organizações caritativas com projectos na Nigéria, incluindo a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), afirmando que os cristãos foram atacados enquanto se encontravam a dormir, pelos pastores Fulani.

Durante mais de duas horas, vítimas inocentes foram alvos fáceis de uma fúria descontrolada. “O uso livre de pistolas, cutelos e outras armas letais deixou poucas hipóteses às pessoas, sobretudo crianças e mulheres, que foram capturadas e queimadas quando tentavam escapar ao massacre”, diz o responsável pela Arquidiocese de Jos.

Um residente de Dogon Nahawa, Peter Jang, revelou que os atacantes dispararam para o ar, procurando que as pessoas saíssem dos seus lares. Quando os aldeões saíram, começaram a disparar contra eles, atacando com facas e armas similares, para além de queimarem as casas.

Os agressores partiram tão depressa que nem os habitantes das aldeias circundantes nem a polícia foram capazes de se organizar a tempo de impedir a sua fuga.

D. Ignatius Kaigama diz que as pessoas temem novos ataques em Jos e Bukuru, apesar de haver mobilização militar para controlar a situação e vários responsáveis nacionais terem apelado a um diálogo racional e a negociações, em busca de paz.

Uma conferência de paz organizada pelo Instituto de Governação e Pesquisa Social, em colaboração com o Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional e o Governo do Estado de Plateau, teve lugar no passado dia 8 de Março.

O Arcebispo Kaigama esteve presente como co-presidente do Conselho Inter-religioso para a Paz e a Harmonia, sublinhando as causas sociais, económicas, étnicas e políticas da violência.

Este responsável também integra o comité presidencial de aconselhamento sobre a crise de Jos, que procura prevenir futuros actos de violência.

Já em Janeiro, o Arcebispo de Jos lamentara que os cristãos tivessem sido retratados como agressores e lembra que em relação à onda de violência, os factos continuam por esclarecer.

O Arcebispo Kaigama defende que os confrontos não estão directamente relacionados com a religião, mas com conflitos “sociais, políticos e étnicos”. “O Governo nigeriano não conseguiu providenciar às pessoas qualquer tipo de segurança social”, esclarece, frisando que uma larga maioria dos jovens não tem qualquer perspectiva de futuro.

D. Ignatius Ayau Kaigama considera que há uma tendência para a violência que é explorada “por líderes políticos e religiosos”, muitas vezes originado por conflitos étnicos entre diferentes grupos tribais.

A Igreja Católica, acrescentou, tem de continuar a dialogar com o Islão e intensificar esse diálogo.

No dia 19, teve lugar uma celebração de solidariedade e oração por todos os que foram afectados pela recente onda de violência.

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